É POR ISSO QUE O BRASIL NÃO VAI

DISCUSSÃO SOBRE AS POLÍTICAS ECONÔMICAS

30.7.09

COMENTÁRIO NO BLOG DO KUPFER

Vou contar uma história real que acompanhei. Um conhecido meu foi convidado para assumir o comando financeiro de uma empresa que se encontrava em dificuldades. Logo que assumiu passou a renegociar caso a caso. A situação era crítica. Nos primeiros dias de trabalho recebia de 3 a 4 ligações de cada banco – operava com 2 ou 3 bancos – para cobrir os cheques voadores que aterrissavam todos os dias com a ameaça dos gerentes de que as contas seriam encerradas se os cheques não fossem cobertos imediatamente. Os fornecedores faziam fila na sala de espera tentando cobrar as duplicatas vencidas. Os salários dos funcionários estavam atrasados. Havia algumas salas cujos aluguéis também estavam atrasados há mais de 3 meses. O INSS atrasado havia sido parcelado, mas ia vencer a terceira parcela o que acarretaria a perda do parcelamento e outras conseqüências. Também havia dívida de ISSQN junto à prefeitura, inclusive de valores já recebidos de clientes (prestadores de serviço), situação que configura apropriação indébita. A pressão era muito forte e a situação desesperadora.  

 

Obviamente a empresa chegou a esta situação graças a incompetência e irresponsabilidade do diretor financeiro anterior. O novo diretor planejou a venda de uma pequena parte da empresa. Com a entrada de capital novo conseguiu dar uma acalmada nos credores. Renegociou todas as dívidas adequando-as a realidade da empresa. E como era uma prestadora de serviços o que mais pesava nas despesas era precisamente a folha de pagamentos. Como naquela época havia uma inflação muito alta – em torno de 30% ao mês - foi fácil fazer uma redução de salários (os salários passaram a ser reajustados através de um redutor de inflação) acompanhados da correção total, sempre que possível, dos valores do fornecimento dos serviços prestados. Com isso conseguiu produzir lucros operacionais possibilitando a amortização das dívidas.

 

Depois de um determinado período de austeridade financeira e o cumprimento daquilo que havia sido renegociado, conseguiu restabelecer a credibilidade da empresa junto ao mercado, mesmo que todas as dívidas estivessem longe de ser quitadas. Durante o arrocho a que submeteu a empresa ele sofria muita pressão e reclamação dos funcionários que o chamavam de carrasco insensível. Antes de ser levada a cabo a tarefa de torná-la uma empresa sólida, saiu, entrando em seu lugar outro diretor mais ou menos da linha do anterior. O novo diretor imediatamente concedeu aumentos gerais de salários, afrouxou as despesas e aumentou os investimentos. Eu mesmo ouvi comentários de funcionários dizendo que “agora, sim, temos um diretor competente e não aquele idiota que não dava aumento pra ninguém”. Não percebiam aqueles pobres coitados que estavam a um passo de a empresa ter as portas lacradas e que eles corriam o sério risco de perder o emprego.  E é assim que funciona; períodos de austeridade e de impopularidade de uns (os malvados) servem para proporcionar períodos de esbanjamento e popularidade de outros (os bonzinhos). Se esta história revela alguma semelhança com alguns governos e governantes de alguns países (todos ou quase todos) não são meras coincidências.

criado por frypl    1:00 — Arquivado em: economia

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